O Caso do TCC Transfóbico

 No dia 5 de agosto, iniciou-se uma reflexão importantíssima sobre violências e como essas são institucionalizadas. Nesta data, foi publicado o Spotted (mensagens anônimas enviadas ao perfil no Instagram) de número 1058, em que se denunciava a existência e apresentação de um TCC transfóbico. A mensagem publicada chamava transgeneridade de sexualidade e dizia “que não existe criança trans, que na verdade nem existe cis e trans”. Esse TCC seria de uma veterana de Pedagogia. 
A discussão que se seguiu nos comentários dessa publicação foi ampla: poucos concordando com a colocação do TCC e a maioria repudiando tal violência. A situação também culminou em debates sobre o Feminismo Radical e as consequências dos discursos de ódio das que se identificam como feministas radicais (radfems), uma vertente do feminismo que nega a existência de pessoas trans por conta de suas genitálias.
Após a repercussão da postagem, o Spotted e o Coletivo Madame Satã (coletivo LGBTQIAP+ da Unifesp) pronunciaram-se através de uma nota de repúdio contra tais comentários transfóbicos na publicação: “o fato de alguém concordar com a afirmação de que pessoas trans não existem mostra ignorância e preconceito. Toda pesquisa científica deve ser apoiada, salvo aquela com lastros em preconceitos históricos e letais. [...] Estamos entrando em contato com a universidade para entender melhor a pesquisa citada”. Depois desta nota, não foi divulgado nenhum desfecho sobre quais seriam as ações da universidade sobre o TCC ou sobre os comentários transfóbicos.
Em entrevista, Mercúrio Barali (não-binárie) do curso de Letras, expressou o seguinte sobre as declarações de feministas radicais nos comentários: “Eu realmente me sinto cansade, parece que as pessoas cis simplesmente não entendem e não procuram entender como a gente sofre num geral e como elas [radfems] são uma manifestação transfóbica”. Além disso, Mercúrio ainda critica o Coletivo Madame Satã e o Spotted ao falar: “Acho que tá na hora de o Madame Satã/Spotted fazerem alguma coisa mais prática sobre isso. [...] Cadê a promoção de eventos sobre transfobia, mobilizações, qualquer coisa sobre? [...] Chega de nota de repúdio, de fazer as coisas no virtual, a vida das pessoas trans não é online.”
Nos comentários da nota de repúdio, um aluno questiona o espaço dado para pessoas transfóbicas e preconceituosas, não se limitando apenas a esse caso, mas também mencionando um Spotted publicado anteriormente com conteúdo bifóbico. Ele diz: “não adianta só pronunciar contra, pára de dar espaço pra gente assim”.
O Brasil é o país mais mortal para pessoas trans no mundo, então o que fica é o gosto amargo de saber que a nossa universidade segue falhando em acolhê-las e repudiar devidamente qualquer ato de violência e deslegitimação da existência de pessoas trans. Esse TCC escancara uma estrutura institucional que corrobora com a transfobia e não acaba em si só; nunca podemos esquecer como todo ato de preconceito é extremamente doloroso às vítimas, e o que parece ser “inofensivo” é apenas a ponta do iceberg de algo muito maior. Isso tudo vai muito além de um Spotted.
Como Mercúrio bem colocou, “a vida das pessoas trans não é online”. O que está sendo feito, concretamente, para auxiliá-las em casos de preconceito e promover conscientização? Por que pessoas preconceituosas ainda podem comentar livremente e possuem espaço para seus discursos de ódio serem publicados?
Quando procurados pelo Jornamenta, o Coletivo Madame Satã e o Núcleo Trans da Unifesp não se manifestaram até o momento de fechamento desta matéria (25/09) para adicionar quaisquer comentários (além da nota de repúdio aqui reproduzida).

Publicado no Volume 7, dia 03/10/2022.
Escrito por Laura Chalegre (História)

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